Portal
Nova República · 1995–1996

PROER e a Pasta Rosa: o socorro aos bancos e a lista de políticos

Para evitar uma quebradeira bancária depois do Plano Real, o governo criou um programa bilionário de socorro. Dentro de um dos bancos salvos, apareceu uma pasta cor-de-rosa com a lista de políticos que tinham recebido dinheiro dele.

Por Indivíduo Execrável · 4 min de leitura

O Plano Real derrubou a inflação em 1994 e, com ela, uma fonte de lucro fácil para os bancos. Durante anos, muitas instituições ganharam dinheiro simplesmente aplicando os depósitos dos clientes enquanto a moeda se desvalorizava. Quando os preços se estabilizaram, ficou claro que vários grandes bancos estavam quebrados por dentro. O socorro do governo ganhou uma sigla, PROER. E de dentro de um dos bancos socorridos saiu uma pasta cor-de-rosa que fez tremer Brasília.

Os bancos em crise

Em 1995, três grandes bancos privados estavam em situação crítica: o Econômico, da Bahia, controlado por Ângelo Calmon de Sá; o Nacional, de Minas Gerais, da família Magalhães Pinto; e o Bamerindus, do Paraná. Juntos, tinham milhões de correntistas.

A quebra desordenada de bancos desse tamanho poderia provocar uma corrida aos caixas e levar outras instituições para o buraco, ameaçando o próprio Plano Real.

O PROER

Em novembro de 1995, o governo Fernando Henrique Cardoso criou o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional, o PROER. A lógica era separar cada banco em crise em duas partes: a parte boa, com depósitos e operações saudáveis, era vendida a outro banco; a parte podre, com dívidas e créditos irrecuperáveis, ficava com o Banco Central para ser liquidada.

O Banco Central financiava a operação. O Nacional foi incorporado pelo Unibanco, o Econômico pelo Excel, e o Bamerindus, em 1997, pelo grupo britânico HSBC. O custo total do programa foi estimado em dezenas de bilhões de reais, e parte desse dinheiro nunca voltou.

O governo defendia que o PROER evitou uma crise bancária sistêmica e protegeu os correntistas. Os críticos diziam que o programa salvou banqueiros com dinheiro público.

A fraude do Nacional

O caso do Nacional era especialmente grave. Depois da intervenção, o Banco Central descobriu que o banco mantinha centenas de contas fictícias para esconder prejuízos e inflar artificialmente seus resultados durante anos. Era uma fraude contábil de grandes proporções, que tinha passado despercebida pela fiscalização.

O caso tinha ainda um componente político delicado: um filho do presidente Fernando Henrique era casado com uma integrante da família Magalhães Pinto, controladora do banco.

A Pasta Rosa

Quando o Banco Central fez a intervenção no Banco Econômico, em agosto de 1995, os interventores encontraram uma pasta cor-de-rosa com documentos de um tipo que ninguém esperava. Eram registros de doações do banco a políticos na campanha eleitoral de 1990.

A lista incluía dezenas de nomes, de vários partidos, com valores somando milhões de dólares. Muitos eram integrantes do grupo político do então governador e senador baiano Antônio Carlos Magalhães, aliado do governo e muito próximo de Ângelo Calmon de Sá. O conteúdo da Pasta Rosa chegou à imprensa e virou escândalo.

O problema central não era apenas a doação, mas a forma: as contribuições não teriam sido registradas na Justiça Eleitoral, o que configurava caixa dois. E levantava uma pergunta incômoda: o banco que financiou tantos políticos agora estava sendo socorrido com dinheiro público.

O arquivamento

O caso da Pasta Rosa foi enviado à Procuradoria-Geral da República. Em 1996, o procurador-geral Geraldo Brindeiro decidiu arquivar a investigação, alegando, entre outros pontos, que os crimes eleitorais de 1990 já estavam prescritos ou não tinham prova suficiente.

O arquivamento reforçou as críticas a Brindeiro, que ganhou da imprensa o apelido de “engavetador-geral da República” por arquivar diversas investigações envolvendo o governo e seus aliados.

O desfecho

O PROER cumpriu o objetivo de evitar uma crise bancária generalizada, e o sistema financeiro saiu dele mais concentrado e mais fiscalizado. Dirigentes do Banco Nacional foram processados e condenados por gestão fraudulenta e outros crimes financeiros, em processos que se arrastaram por anos. Ângelo Calmon de Sá também foi processado pela gestão do Econômico.

Na Pasta Rosa, ninguém foi punido.

Por que esse caso importa hoje

O PROER inaugurou no Brasil o debate sobre o socorro estatal a bancos: necessário para proteger a economia ou injusto por premiar quem quebrou? A mesma discussão voltaria no caso Marka e FonteCindam, em 1999, e em crises bancárias posteriores.

A Pasta Rosa, por sua vez, mostrou de forma crua a relação entre bancos e financiamento de campanha, e como a prescrição e a decisão de não investigar podem encerrar um caso antes que ele comece.

Linha do tempo

  • 1994 · Plano Real acaba com os ganhos inflacionários dos bancos.
  • Ago. 1995 · Banco Central intervém no Econômico; aparece a Pasta Rosa.
  • Nov. 1995 · Governo cria o PROER; Nacional é vendido ao Unibanco e revela fraude contábil.
  • 1996 · Procurador-geral Geraldo Brindeiro arquiva o caso da Pasta Rosa.
  • 1997 · Bamerindus é vendido ao HSBC.

Outros casos

Ver todos →
Nova República · 2002

Celso Daniel: o sequestro, a morte e as perguntas que ficaram

O prefeito de Santo André, coordenador da campanha de Lula, foi sequestrado e morto em janeiro de 2002. A polícia concluiu que foi crime comum. O Ministério Público e a família viram queima de arquivo de um esquema de propina. Vinte anos depois, a disputa continua.

Nova República · 1999

Marka e FonteCindam: o socorro secreto do Banco Central

Na desvalorização do real, em janeiro de 1999, o Banco Central vendeu dólares abaixo do preço de mercado a dois bancos que estavam quebrando. O prejuízo para o país passou de R$ 1,5 bilhão, e o dono de um deles fugiu para a Itália.

Nova República · 2004–2011

Daniel Dantas e a Satiagraha: a operação que acabou anulada

Um banqueiro preso duas vezes em dois dias, dois habeas corpus do presidente do STF, uma tentativa de suborno filmada e, no fim, uma operação inteira anulada por causa de agentes da Abin. A história da Satiagraha.