A Petrobras é a maior empresa do Brasil e, durante a primeira década dos anos 2000, viveu seu período de maior expansão. Com a descoberta do pré-sal, em 2006, a estatal passou a investir dezenas de bilhões de reais por ano em refinarias, plataformas, navios e gasodutos. Esse dinheiro passava por poucas mãos: as diretorias da empresa e um grupo restrito de grandes empreiteiras. As investigações da Lava Jato mostraram que, nesse caminho, uma parte ficava pelo caminho. O esquema ganhou o nome de Petrolão.
As diretorias loteadas
Na Petrobras, as decisões sobre grandes contratos passam pelas diretorias. Segundo as investigações e os depoimentos de delatores, durante os governos Lula e Dilma, algumas dessas diretorias eram ocupadas por indicados de partidos da base aliada, que tinham a função de arrecadar para esses partidos:
| Diretoria | Diretor | Partido que indicou, segundo as investigações |
|---|---|---|
| Abastecimento | Paulo Roberto Costa | PP |
| Serviços | Renato Duque | PT |
| Internacional | Nestor Cerveró, depois Jorge Zelada | MDB |
O clube das empreiteiras
Do outro lado estavam as grandes construtoras do país: Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, UTC, Engevix, Mendes Júnior e outras. Segundo as investigações, elas formavam um cartel, que os próprios participantes chamavam de “clube”.
O clube se reunia para decidir quem venceria cada grande licitação da Petrobras e por qual preço. As outras empresas apresentavam propostas de cobertura, mais caras, para dar aparência de concorrência. Os contratos eram divididos entre os integrantes, e os preços ficavam acima do que seria uma disputa real.
A propina
Em troca de não atrapalhar o cartel, ou de ajudá-lo com informações e aditivos, os diretores indicados recebiam propina. O padrão descrito pelos delatores era de 1% a 3% do valor dos contratos, dividido entre:
- Os partidos que tinham feito a indicação, por meio de tesoureiros e operadores, muitas vezes como doação eleitoral oficial ou caixa dois;
- Os próprios diretores e gerentes, que guardavam parte em contas no exterior;
- Os operadores, como o doleiro Alberto Youssef e lobistas, que faziam o dinheiro chegar ao destino.
O gerente Pedro Barusco, subordinado de Renato Duque, impressionou os investigadores ao se comprometer, em seu acordo de delação, a devolver cerca de US$ 100 milhões que mantinha no exterior, valor acumulado apenas por ele.
As obras
Entre os projetos em que foram identificados desvios estavam:
- A Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, cujo custo saltou de alguns bilhões de dólares para quase dez vezes o previsto inicialmente;
- O Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, o Comperj, que ficou anos inacabado;
- A compra da refinaria de Pasadena, no Texas, com prejuízo bilionário à estatal;
- Contratos de sondas e navios-sonda para o pré-sal.
O prejuízo reconhecido
Pressionada pelos auditores e pelos investidores, a Petrobras publicou em abril de 2015 seu balanço de 2014 com um registro inédito: uma baixa de R$ 6,2 bilhões relativa a valores pagos a mais em contratos por causa da corrupção. Foi o reconhecimento oficial, pela própria empresa, do tamanho do desvio.
A companhia também enfrentou processos de acionistas nos Estados Unidos e fechou acordos que custaram bilhões de dólares.
As condenações
Os ex-diretores Paulo Roberto Costa e Nestor Cerveró fizeram delação premiada. Renato Duque foi condenado em vários processos e, depois de anos negando, também colaborou. Executivos e donos das maiores empreiteiras foram condenados, entre eles Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro, da OAS.
As empreiteiras assinaram acordos de leniência comprometendo-se a devolver bilhões de reais. Ex-tesoureiros de partidos e políticos também foram condenados, e o caso atingiu dezenas de parlamentares.
Parte dessas decisões foi revista nos anos seguintes, num contexto de questionamentos à condução da Lava Jato. Mas o funcionamento do esquema dentro da Petrobras foi confirmado por delatores, documentos, contas no exterior e pela própria estatal.
Por que esse caso importa hoje
O Petrolão mostrou a escala industrial que a corrupção pode atingir quando uma estatal gigante tem suas diretorias usadas como moeda de troca política. Não era um desvio isolado, mas um sistema que funcionou por mais de uma década e envolveu os maiores partidos e as maiores empresas do país.
O caso levou a mudanças concretas: a Lei das Estatais, de 2016, criou regras mais rígidas para a nomeação de diretores e conselheiros de empresas públicas, limitando indicações políticas. E a Petrobras reforçou seus mecanismos internos de controle e de integridade.
A investigação que desmontou o esquema, a Lava Jato, tem sua própria história, contada em outro texto deste portal.
Linha do tempo
- 2003–2004 · Diretorias da Petrobras passam a ser ocupadas por indicados de partidos da base.
- 2006 · Anúncio da descoberta do pré-sal.
- 2006–2012 · Grandes contratos de refinarias, sondas e plataformas.
- Mar. 2014 · Lava Jato prende Alberto Youssef; Paulo Roberto Costa é preso dias depois.
- Ago.–set. 2014 · Paulo Roberto Costa e Youssef fazem delação premiada.
- Nov. 2014 · Executivos das maiores empreiteiras são presos.
- Abr. 2015 · Petrobras reconhece prejuízo de R$ 6,2 bilhões com a corrupção.
- 2016 · Aprovada a Lei das Estatais.
