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Nova República · 2007

Operação Navalha: a Gautama e as obras que só existiam no papel

Uma construtora baiana pagava propina a servidores, prefeitos e autoridades para conseguir verbas federais e receber por obras superfaturadas ou inacabadas. A Polícia Federal prendeu dezenas de pessoas em 2007 e um ministro caiu.

Por Indivíduo Execrável · 3 min de leitura

A Gautama era uma construtora da Bahia sem grande expressão nacional, mas com uma capacidade impressionante de conseguir contratos com dinheiro federal em vários estados do Norte e do Nordeste. Em 17 de maio de 2007, a Polícia Federal deflagrou a Operação Navalha e mostrou o segredo desse sucesso: segundo a investigação, a empresa pagava a quem fosse preciso, do servidor que media a obra ao ministro que liberava o dinheiro.

Zuleido Veras

O dono da Gautama era Zuleido Soares Veras, empresário baiano com trânsito em gabinetes de prefeituras, governos estaduais, ministérios e no Congresso. Segundo a Polícia Federal, ele era o centro de uma rede que envolvia lobistas, assessores parlamentares, servidores públicos e políticos.

Como o esquema funcionava

A investigação descreveu um circuito com várias etapas:

  1. A verba. A Gautama trabalhava junto a parlamentares e ministérios para incluir no Orçamento e liberar recursos para obras do seu interesse, como saneamento, pontes, estradas e projetos de irrigação.
  2. A licitação. As concorrências eram direcionadas para que a empresa vencesse.
  3. A medição. Durante a execução, servidores responsáveis por fiscalizar as obras aprovavam medições de serviços que não tinham sido feitos ou que custavam muito menos do que o declarado. O dinheiro era liberado mesmo assim.
  4. A propina. Em cada etapa, alguém recebia: servidores, prefeitos, assessores e autoridades, em dinheiro, presentes ou favores.

O resultado eram obras superfaturadas, inacabadas ou que existiam apenas no papel.

A operação

A Operação Navalha, que levou o nome da ideia de “cortar” o esquema, resultou em dezenas de prisões em vários estados, incluindo Bahia, Maranhão, Alagoas, Sergipe, Piauí, Pernambuco e o Distrito Federal. Foram presos o próprio Zuleido Veras, executivos da Gautama, servidores, assessores e políticos locais.

As escutas telefônicas autorizadas pela Justiça mostravam negociações de pagamentos, combinações de licitações e conversas sobre entregas de dinheiro.

A queda do ministro

O caso chegou ao primeiro escalão do governo Lula. Segundo a investigação, o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, teria recebido R$ 100 mil de propina por meio de um assessor, em troca de ajuda à Gautama em obras ligadas ao programa Luz para Todos.

Rondeau negou qualquer irregularidade, mas deixou o ministério poucos dias depois da operação, afirmando que queria se defender fora do cargo.

Os desdobramentos

O Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal receberam partes do caso por causa do foro de autoridades citadas. As investigações sobre políticos com foro privilegiado avançaram lentamente.

Na Justiça, a defesa dos acusados contestou a validade de provas e a forma como a operação foi conduzida. Parte dos processos foi arquivada, parte prescreveu e houve condenações em casos específicos, em diferentes estados. Zuleido Veras e outros executivos responderam a múltiplas ações ao longo dos anos.

Por que esse caso importa hoje

A Operação Navalha mostrou um modelo de corrupção que reaparece em todo o país: a cadeia completa da obra pública, da emenda no Orçamento à medição no canteiro. Em cada elo há alguém com poder de liberar dinheiro, e cada elo pode ser comprado.

O caso também expôs a dificuldade de transformar grandes operações em condenações. Prisões espetaculares e escutas comprometedoras nem sempre resistem a anos de recursos e contestações, e a Navalha foi um dos exemplos citados no debate sobre a efetividade das operações da Polícia Federal nos anos 2000.

Linha do tempo

  • Anos 2000 · Gautama consegue contratos com dinheiro federal em vários estados.
  • 2006–2007 · Polícia Federal investiga a empresa com escutas autorizadas.
  • 17 maio 2007 · Deflagrada a Operação Navalha; dezenas de presos.
  • Maio 2007 · Ministro Silas Rondeau deixa o cargo.
  • Anos seguintes · Processos se dividem entre tribunais e se arrastam por anos.

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