A Gautama era uma construtora da Bahia sem grande expressão nacional, mas com uma capacidade impressionante de conseguir contratos com dinheiro federal em vários estados do Norte e do Nordeste. Em 17 de maio de 2007, a Polícia Federal deflagrou a Operação Navalha e mostrou o segredo desse sucesso: segundo a investigação, a empresa pagava a quem fosse preciso, do servidor que media a obra ao ministro que liberava o dinheiro.
Zuleido Veras
O dono da Gautama era Zuleido Soares Veras, empresário baiano com trânsito em gabinetes de prefeituras, governos estaduais, ministérios e no Congresso. Segundo a Polícia Federal, ele era o centro de uma rede que envolvia lobistas, assessores parlamentares, servidores públicos e políticos.
Como o esquema funcionava
A investigação descreveu um circuito com várias etapas:
- A verba. A Gautama trabalhava junto a parlamentares e ministérios para incluir no Orçamento e liberar recursos para obras do seu interesse, como saneamento, pontes, estradas e projetos de irrigação.
- A licitação. As concorrências eram direcionadas para que a empresa vencesse.
- A medição. Durante a execução, servidores responsáveis por fiscalizar as obras aprovavam medições de serviços que não tinham sido feitos ou que custavam muito menos do que o declarado. O dinheiro era liberado mesmo assim.
- A propina. Em cada etapa, alguém recebia: servidores, prefeitos, assessores e autoridades, em dinheiro, presentes ou favores.
O resultado eram obras superfaturadas, inacabadas ou que existiam apenas no papel.
A operação
A Operação Navalha, que levou o nome da ideia de “cortar” o esquema, resultou em dezenas de prisões em vários estados, incluindo Bahia, Maranhão, Alagoas, Sergipe, Piauí, Pernambuco e o Distrito Federal. Foram presos o próprio Zuleido Veras, executivos da Gautama, servidores, assessores e políticos locais.
As escutas telefônicas autorizadas pela Justiça mostravam negociações de pagamentos, combinações de licitações e conversas sobre entregas de dinheiro.
A queda do ministro
O caso chegou ao primeiro escalão do governo Lula. Segundo a investigação, o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, teria recebido R$ 100 mil de propina por meio de um assessor, em troca de ajuda à Gautama em obras ligadas ao programa Luz para Todos.
Rondeau negou qualquer irregularidade, mas deixou o ministério poucos dias depois da operação, afirmando que queria se defender fora do cargo.
Os desdobramentos
O Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal receberam partes do caso por causa do foro de autoridades citadas. As investigações sobre políticos com foro privilegiado avançaram lentamente.
Na Justiça, a defesa dos acusados contestou a validade de provas e a forma como a operação foi conduzida. Parte dos processos foi arquivada, parte prescreveu e houve condenações em casos específicos, em diferentes estados. Zuleido Veras e outros executivos responderam a múltiplas ações ao longo dos anos.
Por que esse caso importa hoje
A Operação Navalha mostrou um modelo de corrupção que reaparece em todo o país: a cadeia completa da obra pública, da emenda no Orçamento à medição no canteiro. Em cada elo há alguém com poder de liberar dinheiro, e cada elo pode ser comprado.
O caso também expôs a dificuldade de transformar grandes operações em condenações. Prisões espetaculares e escutas comprometedoras nem sempre resistem a anos de recursos e contestações, e a Navalha foi um dos exemplos citados no debate sobre a efetividade das operações da Polícia Federal nos anos 2000.
Linha do tempo
- Anos 2000 · Gautama consegue contratos com dinheiro federal em vários estados.
- 2006–2007 · Polícia Federal investiga a empresa com escutas autorizadas.
- 17 maio 2007 · Deflagrada a Operação Navalha; dezenas de presos.
- Maio 2007 · Ministro Silas Rondeau deixa o cargo.
- Anos seguintes · Processos se dividem entre tribunais e se arrastam por anos.
