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Nova República · 2003–2005

Mensalão: a compra de apoio que levou a cúpula do PT à prisão

Uma propina de R$ 3 mil filmada nos Correios, um deputado acuado que resolveu contar tudo e um julgamento de quatro meses no STF. A história do esquema que pagava parlamentares para votar com o governo Lula.

Por Indivíduo Execrável · 5 min de leitura

Em maio de 2005, a revista Veja publicou o vídeo de um funcionário dos Correios, Maurício Marinho, recebendo R$ 3 mil de propina e explicando como funcionava a cobrança de comissões na estatal. Ele dizia agir com o respaldo do PTB, partido do deputado Roberto Jefferson. A cena parecia o início de um escândalo menor. Acabou sendo o estopim do maior caso de corrupção julgado pelo Supremo Tribunal Federal até então.

“Mensalão”

Acuado, Jefferson decidiu não cair sozinho. Em 6 de junho de 2005, em entrevista à jornalista Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, acusou o PT de pagar uma mesada de cerca de R$ 30 mil a deputados de partidos aliados em troca de votos favoráveis ao governo no Congresso. Ele deu nome ao esquema: mensalão.

Segundo Jefferson, os pagamentos eram organizados pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares, com o conhecimento do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, o homem mais poderoso do governo depois do presidente. O dinheiro, disse ele, era entregue por um publicitário mineiro até então desconhecido do grande público: Marcos Valério.

Como o esquema funcionava

O que as investigações reconstruíram depois era mais complexo do que uma mesada fixa:

  1. A captação. As agências de Marcos Valério, a SMP&B e a DNA, tomavam empréstimos nos bancos Rural e BMG. Ao mesmo tempo, recebiam recursos de contratos de publicidade com órgãos públicos, entre eles o fundo Visanet, ligado ao Banco do Brasil.
  2. A fachada. Os empréstimos davam aparência legal ao dinheiro. Segundo o STF, eram fictícios: renovados sucessivamente, sem garantias reais e sem intenção de cobrança.
  3. A distribuição. O dinheiro era sacado em espécie, muitas vezes em agências do Banco Rural em Brasília e Belo Horizonte, e entregue a dirigentes e parlamentares de partidos da base, como PP, PL, PTB e parte do PMDB, e também a integrantes do próprio PT.

O objetivo, segundo a acusação, era garantir maioria no Congresso em votações importantes para o governo, como as reformas da Previdência e tributária de 2003.

A crise de 2005

O depoimento de Jefferson desencadeou a pior crise do governo Lula. O Congresso instalou a CPMI dos Correios, que logo passou a investigar o mensalão. Vieram à tona listas de saques, nomes de beneficiários e a movimentação das agências de Valério.

Em agosto, o publicitário Duda Mendonça, marqueteiro da campanha de Lula em 2002, admitiu à CPI ter recebido no exterior pagamentos pela campanha, o que reforçou a tese de caixa dois. José Dirceu deixou a Casa Civil em junho e, em dezembro de 2005, teve o mandato de deputado cassado. Roberto Jefferson também foi cassado, em setembro.

O presidente Lula afirmou não ter conhecimento do esquema e não foi denunciado. Em 2006, foi reeleito.

A Ação Penal 470

Em 2006, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, denunciou 40 pessoas ao STF, descrevendo o grupo como uma organização criminosa dividida em três núcleos: o político (cúpula do PT), o operacional (Valério e sócios) e o financeiro (dirigentes do Banco Rural).

O processo recebeu o número Ação Penal 470 e foi relatado pelo ministro Joaquim Barbosa. O julgamento começou em agosto de 2012 e durou mais de quatro meses, com sessões transmitidas ao vivo pela TV Justiça. Foi o mais longo da história do tribunal até então.

As condenações

O STF condenou 25 dos 37 réus que chegaram ao julgamento. Entre os principais:

RéuPapelSituação
Marcos ValérioOperador do esquemaMaior pena do processo, acima de 37 anos
José DirceuEx-ministro da Casa CivilCondenado por corrupção ativa
Delúbio SoaresEx-tesoureiro do PTCondenado por corrupção ativa
José GenoinoEx-presidente do PTCondenado por corrupção ativa
Roberto JeffersonEx-presidente do PTB, delatorCondenado por corrupção passiva e lavagem
Kátia RabelloEx-presidente do Banco RuralCondenada por gestão fraudulenta e lavagem

Em 2014, no julgamento dos embargos infringentes, o tribunal absolveu parte dos réus da acusação de formação de quadrilha, o que reduziu penas como a de Dirceu, que caiu para 7 anos e 11 meses.

Em novembro de 2013, Dirceu, Genoino e Delúbio se apresentaram à Polícia Federal e foram presos. Valério também começou a cumprir pena. Era a primeira vez que a cúpula de um partido no poder ia para a cadeia por corrupção.

Por que esse caso importa hoje

O mensalão mudou a forma como o país via a impunidade. Até ali, a percepção era de que políticos poderosos nunca seriam condenados pelo STF. O julgamento mostrou o contrário e criou entendimentos, como a possibilidade de condenar por corrupção sem um “ato de ofício” explícito, que influenciaram processos seguintes.

Ao mesmo tempo, o caso expôs um problema que sobreviveria a ele: a compra de apoio parlamentar como forma de governar num Congresso fragmentado. O mesmo operador, Marcos Valério, já tinha usado o método em Minas Gerais em 1998, no chamado mensalão mineiro. E poucos anos depois, a Lava Jato revelaria um esquema com objetivo parecido e escala muito maior, alimentado por contratos da Petrobras.

Linha do tempo

  • 2003 · Começam os pagamentos a partidos da base, segundo a acusação.
  • Maio 2005 · Vídeo mostra funcionário dos Correios recebendo propina.
  • 6 jun. 2005 · Roberto Jefferson denuncia o mensalão à Folha de S.Paulo.
  • Jun. 2005 · José Dirceu deixa a Casa Civil.
  • Set. 2005 · Jefferson é cassado; em dezembro, Dirceu também.
  • 2006 · Procurador-geral denuncia 40 pessoas ao STF.
  • Ago.–dez. 2012 · Julgamento da Ação Penal 470; 25 condenados.
  • Nov. 2013 · Dirceu, Genoino, Delúbio e Valério são presos.
  • 2014 · Embargos infringentes derrubam a condenação por formação de quadrilha.

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