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Nova República · 1998

Mensalão mineiro: o laboratório do valerioduto

Antes de chegar a Brasília, o esquema de Marcos Valério foi testado na campanha de reeleição de Eduardo Azeredo ao governo de Minas, em 1998. O caso levou quase duas décadas para ser julgado e terminou com um ex-governador preso.

Por Indivíduo Execrável · 4 min de leitura

Quando o país descobriu, em 2005, que um publicitário mineiro chamado Marcos Valério operava pagamentos a deputados da base do governo Lula, os investigadores logo perceberam que aquele mecanismo não tinha nascido em Brasília. Ele já tinha sido usado, com as mesmas agências, o mesmo banco e quase o mesmo roteiro, sete anos antes, em Minas Gerais. Ali, o candidato beneficiado era um tucano: o governador Eduardo Azeredo, que tentava a reeleição em 1998. O caso ficou conhecido como mensalão mineiro, ou mensalão tucano, e a Procuradoria-Geral da República o descreveu como a origem do esquema que viria depois.

A campanha de 1998

Eduardo Azeredo era governador de Minas e disputava um segundo mandato contra Itamar Franco, ex-presidente da República. A campanha era cara e o caixa, segundo a acusação, foi reforçado com dinheiro que não aparecia na prestação de contas.

Para isso, entraram em cena as agências de publicidade SMP&B e DNA, das quais Marcos Valério era sócio, e empréstimos tomados no Banco Rural. O coordenador financeiro da campanha era o empresário Walfrido dos Mares Guia, e o candidato a vice era Clésio Andrade, então sócio de Valério.

O caminho do dinheiro

O mecanismo descrito na denúncia tinha três etapas:

  1. O patrocínio. Estatais mineiras, como a Copasa (saneamento), a Comig (mineração) e o banco estadual Bemge, repassaram dinheiro como patrocínio de eventos esportivos, entre eles o Enduro Internacional da Independência, uma competição de motociclismo. As cotas eram muito superiores ao que os eventos justificavam.
  2. A intermediação. O dinheiro passava pelas agências de Valério, que o misturavam com recursos de empréstimos bancários tomados no Banco Rural. Os empréstimos davam aparência legal ao dinheiro e, segundo a acusação, nunca foram cobrados de fato.
  3. O destino. Os recursos abasteciam a campanha de Azeredo e eram distribuídos a aliados e cabos eleitorais, por fora da contabilidade oficial.

A Procuradoria apontou um desvio de cerca de R$ 3,5 milhões em dinheiro público, em valores da época. O volume total que circulou pelo caixa paralelo da campanha foi estimado em valores bem maiores.

Do esquecimento ao Supremo

Azeredo perdeu a eleição de 1998 para Itamar. Durante anos, o caso permaneceu em segundo plano. Foi a investigação do mensalão federal, a partir de 2005, que o trouxe de volta: ao rastrear as contas de Valério, a Polícia Federal e o Ministério Público encontraram as operações de 1998.

Em 2007, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, denunciou Azeredo e outros envolvidos ao Supremo Tribunal Federal, onde o ex-governador tinha foro por ser parlamentar. A denúncia o apontava como beneficiário principal e sabedor do esquema.

A renúncia e a volta à primeira instância

O processo andou devagar. Em 2014, quando o julgamento no STF se aproximava, Azeredo renunciou ao mandato de deputado federal. Com isso, perdeu o foro privilegiado, e o processo desceu para a primeira instância da Justiça de Minas Gerais, o que adiou o desfecho em vários anos. A manobra foi duramente criticada por ministros do Supremo, mas era permitida pela lei da época.

Outros envolvidos foram beneficiados pelo tempo. Walfrido dos Mares Guia, por exemplo, teve os crimes considerados prescritos por ter passado dos 70 anos, idade em que o prazo de prescrição cai pela metade.

A condenação

Em dezembro de 2015, a Justiça de Minas condenou Eduardo Azeredo a 20 anos e 10 meses de prisão por peculato e lavagem de dinheiro. Em 2017, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais confirmou a condenação, com pequena redução da pena.

Em maio de 2018, esgotados os recursos no tribunal estadual, Azeredo se entregou e foi preso em Belo Horizonte, quase vinte anos depois da eleição em que o esquema foi usado. Mais tarde, por causa da idade e de questões de saúde, passou a cumprir a pena em regime domiciliar.

Marcos Valério, por sua vez, já estava preso pela condenação no mensalão federal, onde recebeu a maior pena entre os réus.

Por que esse caso importa hoje

O mensalão mineiro é a prova de que o valerioduto não tinha partido. O mesmo operador, as mesmas agências e o mesmo banco serviram a uma campanha do PSDB em 1998 e a um esquema de compra de apoio do PT a partir de 2003. O método vinha antes das siglas.

O caso também expôs o peso do foro privilegiado e da demora judicial. Entre a eleição e a prisão do principal condenado passaram-se quase vinte anos, uma renúncia estratégica e várias prescrições. Para muitos envolvidos, o tempo funcionou como absolvição.

Linha do tempo

  • 1998 · Estatais mineiras patrocinam eventos; o dinheiro passa pelas agências de Valério e abastece a campanha de Azeredo.
  • Out. 1998 · Azeredo perde a eleição para Itamar Franco.
  • 2005 · Investigação do mensalão federal encontra as operações de 1998.
  • 2007 · Procurador-geral da República denuncia Azeredo ao STF.
  • Fev. 2014 · Azeredo renuncia ao mandato de deputado e o processo volta à primeira instância.
  • Dez. 2015 · Condenado a 20 anos e 10 meses por peculato e lavagem.
  • 2017 · Tribunal de Justiça de Minas confirma a condenação.
  • Maio 2018 · Azeredo é preso em Belo Horizonte.

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