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Nova República · 1988–1991

Jorgina de Freitas: a maior fraude da história da Previdência

Uma advogada, um juiz e um procurador transformaram ações de acidente de trabalho contra o INSS numa máquina de desviar dinheiro. A quadrilha tirou o equivalente a centenas de milhões de dólares da Previdência, e a principal acusada passou anos foragida na Costa Rica.

Por Indivíduo Execrável · 4 min de leitura

O Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS, é condenado na Justiça todos os dias a pagar benefícios e indenizações. Na maioria das vezes, isso é a lei funcionando. No Rio de Janeiro do fim dos anos 1980, um grupo percebeu que, se controlasse as três pontas de um processo, quem pede, quem julga e quem deveria defender o INSS, poderia fazer a Previdência pagar o que quisesse. A figura mais conhecida desse grupo era a advogada Jorgina de Freitas.

As três pontas do processo

Ações por acidente de trabalho contra o INSS eram comuns e, em geral, de valor modesto. O trabalhador acidentado pedia uma indenização, o INSS se defendia por meio de seus procuradores, e um juiz decidia o valor.

O esquema desmontou esse equilíbrio:

  1. Do lado de quem pedia, advogados como Jorgina conduziam as ações em nome de segurados, alguns reais e outros com direitos muito menores do que o alegado.
  2. Do lado de quem julgava, o juiz Nestor José do Nascimento, da vara de acidentes do trabalho, homologava cálculos com valores extraordinariamente altos.
  3. Do lado de quem deveria defender o INSS, procuradores e servidores da autarquia não contestavam os valores, deixavam passar os prazos de recurso ou facilitavam a liberação dos pagamentos.

Com as três pontas combinadas, uma indenização que deveria valer pouco se transformava em uma fortuna, e ninguém dentro do processo reclamava.

O dinheiro

Os pagamentos eram feitos em contas controladas pelos advogados, que repassavam aos segurados apenas uma fração, quando repassavam. O restante era dividido entre os integrantes do grupo. Parte do dinheiro foi enviada para contas no exterior, em países como Suíça e Estados Unidos, e parte virou imóveis, carros e investimentos.

As estimativas oficiais da época falavam em um desvio na casa de US$ 600 milhões, o que fez do caso a maior fraude já registrada contra a Previdência brasileira.

A descoberta

As suspeitas surgiram a partir de auditorias internas do INSS e de investigações do Ministério Público e da Polícia Federal, que notaram valores de indenização fora de qualquer padrão concentrados em uma mesma vara e com os mesmos advogados.

Em 1991, as investigações chegaram aos nomes de Jorgina, do juiz e de outros integrantes do esquema. O caso ganhou repercussão nacional num momento em que a própria Previdência enfrentava crise financeira e o governo discutia cortes de benefícios.

A fuga

Com a prisão decretada, Jorgina fugiu do país. Passou anos foragida e se tornou uma das pessoas mais procuradas pela polícia brasileira. Foi localizada e presa na Costa Rica em 1997, e extraditada para o Brasil no ano seguinte.

Condenada pela Justiça a uma pena longa de prisão, cumpriu parte dela em regime fechado no Rio de Janeiro. O juiz Nestor do Nascimento e outros participantes também foram condenados.

A recuperação do dinheiro

O caso foi um dos primeiros em que o Brasil conseguiu repatriar dinheiro desviado e escondido no exterior. Ao longo dos anos, por meio de acordos de cooperação internacional, parte dos valores bloqueados em contas fora do país voltou aos cofres públicos. A recuperação foi parcial e lenta, mas abriu caminho para os mecanismos usados em casos posteriores.

Por que esse caso importa hoje

O caso Jorgina mostrou que a corrupção não depende só de políticos. Ela pode estar dentro do Judiciário e da própria máquina que deveria proteger o dinheiro público. Quando juiz, advogado e defensor do Estado jogam no mesmo time, o processo perde qualquer controle.

A fraude também deixou lições práticas. Depois dela, o INSS passou a revisar cálculos de indenizações de alto valor e a reforçar o acompanhamento das ações judiciais, e o Brasil passou a usar com mais frequência os acordos internacionais para rastrear e trazer de volta dinheiro escondido no exterior.

Linha do tempo

  • Fim dos anos 1980 · Indenizações por acidente de trabalho com valores inflados são pagas pelo INSS no Rio.
  • 1991 · Investigações identificam Jorgina, o juiz Nestor do Nascimento e outros envolvidos.
  • Início dos anos 1990 · Com a prisão decretada, Jorgina foge do país.
  • 1997 · Jorgina é presa na Costa Rica.
  • 1998 · É extraditada para o Brasil e passa a cumprir pena.
  • Anos seguintes · Parte do dinheiro escondido no exterior é repatriada.

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