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Nova República · 2006

Dossiê dos Aloprados: R$ 1,7 milhão num quarto de hotel

A duas semanas da eleição de 2006, a Polícia Federal prendeu petistas com quase R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo. O dinheiro era para comprar um dossiê contra José Serra. Lula os chamou de 'aloprados'. A origem do dinheiro nunca foi esclarecida.

Por Indivíduo Execrável · 4 min de leitura

No dia 15 de setembro de 2006, a Polícia Federal entrou num quarto do hotel Ibis, perto do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e encontrou dois homens com uma montanha de dinheiro vivo: cerca de R$ 1,7 milhão, parte em reais e parte em dólares. Os dois eram ligados ao PT. O dinheiro, segundo a investigação, seria usado para comprar um dossiê contra o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra. Faltavam duas semanas para a eleição.

O contexto

A eleição de 2006 acontecia sob o impacto de dois escândalos: o mensalão, de 2005, e o dos Sanguessugas, revelado em maio de 2006. Lula disputava a reeleição contra Geraldo Alckmin, e o PT tentava eleger Aloizio Mercadante governador de São Paulo contra José Serra.

No caso dos Sanguessugas, o empresário Luiz Antônio Vedoin, da Planam, tinha se tornado colaborador da Justiça. E dizia ter material que ligava tucanos ao esquema das ambulâncias, da época em que Serra foi ministro da Saúde no governo Fernando Henrique.

O negócio

Segundo a investigação, um grupo ligado à campanha petista negociou com Vedoin a compra desse material, que incluía documentos, fotos e um vídeo, para que fosse divulgado na imprensa antes da eleição, prejudicando Serra e Alckmin.

O pagamento seria feito em dinheiro vivo. Dois intermediários foram encarregados de levar o dinheiro: Gedimar Passos, ex-agente da Polícia Federal que trabalhava para o PT, e Valdebran Padilha, empresário de Mato Grosso ligado ao partido.

A prisão

A Polícia Federal, que já monitorava a negociação, prendeu os dois no hotel com o dinheiro. Em Cuiabá, integrantes da família Vedoin também foram detidos. A apreensão foi registrada em fotos que logo se espalharam pela imprensa: pilhas de notas sobre uma cama.

Os aloprados

As investigações chegaram a um grupo de petistas que teria participado da operação, entre eles Jorge Lorenzetti, então coordenador de inteligência da campanha de Lula; Osvaldo Bargas, ex-secretário do Ministério do Trabalho; Expedito Veloso, ex-diretor do Banco do Brasil; e Hamilton Lacerda, coordenador da campanha de Mercadante.

Lula disse não saber de nada e, em entrevista, se referiu aos envolvidos como “aloprados”. O apelido batizou o caso. O presidente do PT e coordenador da campanha à reeleição, Ricardo Berzoini, deixou a coordenação da campanha. Lorenzetti e outros integrantes também foram afastados.

O efeito na eleição

O escândalo explodiu na reta final da campanha. Lula, que liderava as pesquisas com folga e tinha chance de vencer no primeiro turno, não alcançou a maioria em 1º de outubro e precisou disputar o segundo turno com Alckmin. Na avaliação de analistas da época, o caso dos aloprados, somado à ausência de Lula num debate na TV, pesou nesse resultado.

No segundo turno, Lula venceu com folga. Em São Paulo, José Serra foi eleito governador no primeiro turno.

A pergunta sem resposta

A pergunta central do caso sempre foi: de onde veio o dinheiro? A Polícia Federal rastreou parte das notas e investigou diversas hipóteses, mas a origem dos recursos nunca foi identificada de forma conclusiva.

O conteúdo do suposto dossiê também nunca se mostrou relevante. O material não comprovava envolvimento de Serra no esquema das ambulâncias.

Na Justiça, os envolvidos foram processados. O caso se arrastou por anos entre diferentes instâncias, e houve absolvições e extinção de punibilidade para parte dos acusados.

Por que esse caso importa hoje

O Dossiê dos Aloprados é um retrato do uso de dinheiro não declarado em campanhas e da guerra suja em reta final de eleição. Mais do que o dossiê, que se revelou inútil, o que marcou o caso foi a montanha de dinheiro vivo nas mãos de pessoas ligadas a um partido, sem origem explicada.

O episódio também mostrou que um escândalo na última semana pode mudar o rumo de uma eleição, mesmo quando não atinge diretamente o candidato.

Linha do tempo

  • Maio 2006 · Operação Sanguessuga; Luiz Antônio Vedoin passa a colaborar com a Justiça.
  • Set. 2006 · Petistas negociam com Vedoin a compra de um dossiê contra tucanos.
  • 15 set. 2006 · PF prende Gedimar Passos e Valdebran Padilha com cerca de R$ 1,7 milhão.
  • Set. 2006 · Lula chama os envolvidos de "aloprados"; Berzoini deixa a coordenação da campanha.
  • 1º out. 2006 · Eleição presidencial vai ao segundo turno.
  • 29 out. 2006 · Lula é reeleito.

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