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Nova República · 2002

Celso Daniel: o sequestro, a morte e as perguntas que ficaram

O prefeito de Santo André, coordenador da campanha de Lula, foi sequestrado e morto em janeiro de 2002. A polícia concluiu que foi crime comum. O Ministério Público e a família viram queima de arquivo de um esquema de propina. Vinte anos depois, a disputa continua.

Por Indivíduo Execrável · 4 min de leitura

Na noite de 18 de janeiro de 2002, o prefeito de Santo André, Celso Daniel, saiu de um restaurante na zona sul de São Paulo no carro do empresário e amigo Sérgio Gomes da Silva, conhecido como Sombra. No caminho, o veículo foi cercado por homens armados. Celso Daniel foi levado. Sombra ficou. Dois dias depois, o corpo do prefeito foi encontrado numa estrada de terra em Juquitiba, na Grande São Paulo, com oito tiros. A partir daí, o caso se dividiu em duas histórias que nunca mais se encontraram.

Quem era Celso Daniel

Celso Daniel era um dos quadros mais respeitados do PT. Economista, estava no terceiro mandato como prefeito de Santo André, no ABC paulista, e tinha sido escolhido para coordenar o programa de governo da campanha presidencial de Lula em 2002. Era cotado para ser ministro num eventual governo do partido.

O sequestro

Celso Daniel e Sombra voltavam de um jantar quando a Pajero blindada em que estavam foi interceptada por outros carros. Segundo o relato de Sombra, os criminosos atiraram, ele tentou fugir, mas o carro apresentou problemas. O prefeito foi retirado do veículo e levado. Sombra não foi levado.

O corpo foi encontrado na manhã de 20 de janeiro, com marcas de tortura, segundo parte dos peritos que examinaram o caso.

A versão da polícia: crime comum

A Polícia Civil de São Paulo concluiu que o crime foi obra de uma quadrilha da favela Pantanal, na zona sul da capital, que teria sequestrado o prefeito por acaso, sem saber quem ele era, achando que se tratava de um empresário rico. Ao descobrir a identidade da vítima, os sequestradores teriam entrado em pânico e o matado.

Integrantes do grupo foram presos, e alguns confessaram participação. A Polícia Federal, que também investigou, chegou a conclusão semelhante.

A versão do Ministério Público: crime político

O Ministério Público de São Paulo e a família do prefeito nunca aceitaram essa versão. Os irmãos João Francisco e Bruno Daniel afirmaram que existia em Santo André um esquema de cobrança de propina de empresas de ônibus e de coleta de lixo que prestavam serviços à prefeitura, e que parte do dinheiro abastecia o caixa de campanha do PT.

Segundo essa versão, Celso Daniel teria descoberto que integrantes do grupo estavam desviando parte do dinheiro para si próprios e decidido acabar com o esquema, o que teria motivado a morte. Os promotores apontaram Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, como mandante do crime. Ele sempre negou.

As mortes em volta do caso

Nos anos seguintes, sete pessoas ligadas ao caso morreram de forma violenta ou em circunstâncias consideradas suspeitas por quem defendia a tese de crime político. Entre elas, um garçom que serviu o jantar, um agente funerário que teria visto o corpo e uma das pessoas que teriam ajudado no sequestro. Cada morte teve sua própria investigação, e nenhuma ligação entre elas foi comprovada.

Os julgamentos

Os executores apontados pela investigação foram levados a júri e condenados, em julgamentos realizados ao longo dos anos seguintes.

Sombra foi denunciado como mandante e chegou a ficar preso preventivamente, mas foi solto e respondeu ao processo em liberdade. O julgamento foi adiado sucessivas vezes por recursos. Em 2016, Sérgio Gomes da Silva morreu de câncer, sem ter sido julgado. Com sua morte, a acusação contra ele foi extinta.

Paralelamente, o esquema de propina em Santo André foi investigado em outros processos, com denúncias contra empresários e ex-integrantes da prefeitura.

Por que esse caso importa hoje

O caso Celso Daniel é um dos episódios mais polarizados da política brasileira recente. Para uns, é a prova de que a disputa política foi usada para transformar um crime comum em escândalo. Para outros, é a prova de que um esquema de corrupção chegou ao assassinato e foi acobertado.

O que é certo é que a pergunta central, se houve ou não um mandante, nunca recebeu resposta da Justiça. E a denúncia da família sobre a propina em Santo André antecipou um tema que dominaria a década seguinte: a relação entre contratos municipais, caixa dois e financiamento de campanhas.

Linha do tempo

  • 18 jan. 2002 · Celso Daniel é sequestrado ao sair de um restaurante em São Paulo.
  • 20 jan. 2002 · Corpo é encontrado em Juquitiba, com oito tiros.
  • 2002 · Polícia conclui que foi crime comum; Ministério Público aponta crime encomendado.
  • 2003–2004 · Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, é denunciado como mandante e chega a ser preso preventivamente.
  • Anos seguintes · Executores são condenados pelo júri; outras pessoas ligadas ao caso morrem.
  • 2016 · Sombra morre sem ter sido julgado.

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