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Nova República · 2004–2012

Caso Cachoeira: o bicheiro, o senador e a construtora

As escutas da Operação Monte Carlo revelaram que o senador que se apresentava como paladino da ética trabalhava para um contraventor de Goiás. Demóstenes Torres foi cassado, e a CPMI que deveria ir além terminou sem resultado.

Por Indivíduo Execrável · 4 min de leitura

Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, já era conhecido em Brasília antes de 2012. Em 2004, um vídeo em que ele aparecia negociando com Waldomiro Diniz, então assessor da Casa Civil do governo Lula, tinha provocado o primeiro escândalo do governo petista. Oito anos depois, Cachoeira voltou ao centro do noticiário, agora com uma rede de influência que ia de policiais em Goiás a um dos senadores mais respeitados do país.

O império do jogo

Cachoeira era empresário em Goiás e, segundo a Polícia Federal, chefe de uma organização que explorava jogos ilegais, como caça-níqueis e jogo do bicho, em Goiás e no Distrito Federal. Para manter o negócio funcionando, o grupo precisava de proteção: policiais que avisassem de operações, servidores que fizessem vista grossa e políticos que defendessem seus interesses.

A Operação Monte Carlo

Em 29 de fevereiro de 2012, a Polícia Federal deflagrou a Operação Monte Carlo e prendeu Cachoeira e dezenas de integrantes do grupo, incluindo policiais militares, civis e federais. A operação era a continuação de uma investigação anterior, a Operação Vegas, de 2008 e 2009.

O que transformou o caso em escândalo nacional foram as escutas telefônicas. Elas registraram centenas de conversas entre Cachoeira e políticos, empresários e autoridades.

Demóstenes Torres

Entre os interlocutores mais frequentes estava o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Ex-procurador-geral de Justiça do estado, Demóstenes tinha construído no Senado uma imagem de paladino da ética, crítico duro da corrupção no governo e defensor da Lei da Ficha Limpa.

As gravações mostraram outra coisa. Segundo a investigação, Demóstenes mantinha uma relação próxima com Cachoeira, recebia presentes, como um fogão e uma geladeira importados, usava um telefone fornecido pelo grupo para conversas reservadas e atuava em defesa dos interesses do contraventor, inclusive pedindo informações sobre investigações e articulando em órgãos públicos.

A cassação

Demóstenes negou ter cometido crimes e disse que não sabia das atividades ilegais do amigo. O Senado não aceitou a defesa. Em 11 de julho de 2012, o plenário cassou seu mandato por quebra de decoro, com 56 votos a favor. Ele ficou inelegível.

Foi apenas a segunda cassação de um senador na história do Senado. A primeira tinha sido a de Luiz Estevão, em 2000.

A Delta

As escutas também revelaram as relações do grupo com a Delta Construções, empreiteira de Fernando Cavendish que era, na época, uma das maiores recebedoras de contratos do governo federal, especialmente em obras do PAC. Segundo a investigação, um diretor regional da Delta no Centro-Oeste tinha ligação estreita com Cachoeira.

A Delta perdeu contratos, entrou em crise e pediu recuperação judicial. Cavendish voltaria ao noticiário anos depois, nas investigações da Lava Jato no Rio de Janeiro, por relações com o governo de Sérgio Cabral.

A CPMI do Cachoeira

O Congresso instalou em 2012 a CPMI do Cachoeira, com a promessa de investigar as relações do contraventor com políticos de vários partidos e governadores. A comissão ouviu depoentes, quebrou sigilos e expôs ligações com diferentes grupos políticos.

Exatamente por atingir muitos lados, a CPMI terminou em impasse. O relatório principal, que pedia o indiciamento de dezenas de pessoas, foi rejeitado. No fim, foi aprovado um texto curto, sem indiciamentos relevantes.

Os desfechos

Cachoeira foi condenado pela Justiça Federal em processos ligados à Operação Monte Carlo, por crimes como formação de quadrilha, corrupção e violação de sigilo. Recorreu e passou períodos preso e em liberdade ao longo dos anos.

O caso de Demóstenes teve um desfecho diferente. Anos depois, o Supremo Tribunal Federal anulou as provas obtidas contra ele nas escutas, por entender que, como senador, ele só poderia ter sido investigado com autorização do próprio Supremo. Com isso, os processos criminais contra ele perderam a base, e Demóstenes voltou ao Ministério Público de Goiás. A cassação no Senado, porém, não foi revertida.

Por que esse caso importa hoje

O caso Cachoeira expôs a ligação entre crime organizado, empreiteiras e política, num esquema que não dependia de desviar dinheiro diretamente do Orçamento, mas de comprar proteção e influência.

Também mostrou o peso das regras de foro e das provas. O mesmo material que levou à cassação política de Demóstenes foi considerado inválido para condená-lo na Justiça, um paradoxo que lembra o de Collor, absolvido no STF depois de perder o mandato.

Linha do tempo

  • Fev. 2004 · Vídeo de Cachoeira com Waldomiro Diniz provoca escândalo no governo Lula.
  • 2008–2009 · Polícia Federal faz a Operação Vegas.
  • 29 fev. 2012 · Operação Monte Carlo prende Cachoeira e dezenas de pessoas.
  • Mar.–abr. 2012 · Escutas revelam a relação com o senador Demóstenes Torres.
  • Abr. 2012 · Congresso instala a CPMI do Cachoeira.
  • 11 jul. 2012 · Senado cassa Demóstenes Torres.
  • Dez. 2012 · CPMI termina sem indiciamentos relevantes.

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