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Nova República · 2017–2019

O bunker de Geddel: R$ 51 milhões num apartamento em Salvador

Malas e caixas de papelão empilhadas até o teto, contadas por máquinas durante 14 horas. A maior apreensão de dinheiro vivo da história do país tinha as impressões digitais de um ex-ministro de Michel Temer.

Por Indivíduo Execrável · 4 min de leitura

Em 5 de setembro de 2017, agentes da Polícia Federal entraram num apartamento no bairro da Graça, em Salvador. Não havia móveis. Havia malas e caixas de papelão empilhadas pelo chão, cheias de dinheiro vivo. A contagem, feita com máquinas, levou cerca de 14 horas. O total: R$ 42,6 milhões e US$ 2,7 milhões, cerca de R$ 51 milhões. Foi a maior apreensão de dinheiro em espécie da história do Brasil. O apartamento tinha sido emprestado a um ex-ministro: Geddel Vieira Lima.

Quem é Geddel

Geddel Vieira Lima é um político baiano do MDB, com décadas de carreira. Foi deputado federal por vários mandatos, ministro da Integração Nacional no governo Lula e vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal no governo Dilma, entre 2011 e 2013.

Em 2016, com a chegada de Michel Temer à Presidência, tornou-se ministro da Secretaria de Governo, responsável pela articulação política do Planalto com o Congresso.

A primeira queda

Geddel ficou pouco tempo no cargo. Em novembro de 2016, o então ministro da Cultura, Marcelo Calero, pediu demissão e acusou Geddel de pressioná-lo para liberar a construção de um prédio de luxo em Salvador, o La Vue, onde Geddel tinha comprado um apartamento. A obra tinha sido barrada pelo Iphan por causa da proximidade com áreas históricas. Diante do escândalo, Geddel deixou o governo.

A Caixa

Enquanto isso, a Lava Jato e suas operações derivadas investigavam um esquema de propinas na Caixa Econômica Federal. Segundo o operador Lúcio Funaro, que fez delação premiada, empresas pagavam para obter liberação de créditos e investimentos da Caixa e do fundo FI-FGTS, e parte do dinheiro ia para políticos do MDB, entre eles Geddel e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. As investigações ficaram conhecidas como Operação Cui Bono e Sépsis.

Em julho de 2017, Geddel foi preso preventivamente, acusado de tentar atrapalhar as investigações pressionando Funaro a não fazer delação. Pouco depois, passou à prisão domiciliar.

O bunker

A Polícia Federal recebeu uma informação anônima de que Geddel guardaria dinheiro num apartamento em Salvador, emprestado por um amigo. Em 5 de setembro de 2017, a PF entrou no imóvel na Operação Tesouro Perdido e encontrou o que logo foi apelidado de “bunker”.

Peritos encontraram impressões digitais de Geddel em sacos e embalagens do dinheiro. As investigações indicaram também a participação do irmão, o deputado federal Lúcio Vieira Lima, e de um ex-assessor que teria ajudado a transportar e guardar as malas.

Três dias depois, Geddel voltou para a prisão preventiva, desta vez em regime fechado, na Papuda.

A origem do dinheiro

Segundo a Procuradoria-Geral da República, o dinheiro tinha duas origens principais:

  1. Propinas pagas por empresas no esquema da Caixa Econômica Federal, segundo os delatores;
  2. Desvio de salários de assessores parlamentares do gabinete de Lúcio Vieira Lima, que teriam sido obrigados a devolver parte do que recebiam.

A família Vieira Lima negou as acusações durante o processo, mas não apresentou uma explicação convincente para a origem do dinheiro.

O julgamento

O caso foi julgado pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, porque Lúcio Vieira Lima ainda tinha foro como deputado quando a denúncia foi apresentada. Em outubro de 2019, o STF condenou:

  • Geddel Vieira Lima a 14 anos e 10 meses de prisão, por lavagem de dinheiro e associação criminosa;
  • Lúcio Vieira Lima a 10 anos e 6 meses, pelos mesmos crimes.

O tribunal também determinou que o dinheiro apreendido fosse destinado aos cofres públicos, e fixou indenização por danos morais coletivos.

Em 2020, durante a pandemia de Covid-19, Geddel obteve o direito de cumprir pena em prisão domiciliar, por razões de saúde.

Por que esse caso importa hoje

O bunker de Geddel virou a imagem mais crua da corrupção brasileira: não planilhas, contas no exterior ou empresas de fachada, mas pilhas de dinheiro vivo num apartamento vazio. Uma foto que dispensa explicação.

O caso também mostrou como a corrupção atravessou governos de partidos diferentes. Geddel foi ministro de Lula, vice-presidente da Caixa com Dilma e ministro de Temer. O dinheiro encontrado em Salvador, segundo a acusação, vinha de esquemas montados ao longo de todo esse período.

Linha do tempo

  • 2011–2013 · Geddel é vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa.
  • Maio 2016 · Assume a Secretaria de Governo de Michel Temer.
  • Nov. 2016 · Deixa o governo após o caso do edifício La Vue.
  • Jul. 2017 · É preso preventivamente e depois passa à prisão domiciliar.
  • 5 set. 2017 · PF encontra R$ 51 milhões no apartamento em Salvador.
  • 8 set. 2017 · Geddel volta à prisão preventiva.
  • Out. 2019 · STF condena Geddel e Lúcio Vieira Lima.
  • 2020 · Geddel passa à prisão domiciliar por razões de saúde.

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