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Internacional · 1997–2011

Parapolítica: quando os paramilitares elegeram o Congresso da Colômbia

Os esquadrões das Autodefensas Unidas de Colombia mataram milhares de pessoas e controlaram regiões inteiras do país. Para se proteger, firmaram pactos com políticos. A Suprema Corte condenou dezenas de congressistas, um primo do presidente e o chefe da polícia secreta.

Por Indivíduo Execrável · 4 min de leitura

Durante décadas, a Colômbia viveu um conflito armado com várias frentes. De um lado, guerrilhas de esquerda, como as FARC e o ELN. Do outro, o Estado. E, no meio, um terceiro ator que cresceu nos anos 1980 e 1990: os paramilitares, grupos armados de extrema direita criados com o discurso de combater a guerrilha, mas que se envolveram profundamente com o narcotráfico e com massacres contra a população civil. No início dos anos 2000, eles já não queriam apenas controlar territórios. Queriam controlar o Estado. O escândalo que revelou isso ficou conhecido como parapolítica.

As AUC

Em 1997, diversos grupos paramilitares regionais se uniram sob uma organização nacional, as Autodefensas Unidas de Colombia, as AUC, lideradas por Carlos Castaño e, depois, por chefes como Salvatore Mancuso. No auge, as AUC tinham dezenas de milhares de combatentes.

Financiados por fazendeiros, empresários e, sobretudo, pelo tráfico de cocaína, os paramilitares cometeram massacres, assassinatos seletivos de sindicalistas, camponeses, líderes indígenas e defensores de direitos humanos, além de deslocamentos forçados de milhões de pessoas. Em várias regiões, especialmente no norte do país, tornaram-se a autoridade real.

Da guerra à política

Controlar o território não bastava. Os chefes paramilitares queriam influência política para garantir proteção, impunidade e, no futuro, condições favoráveis numa eventual desmobilização. A estratégia foi eleger aliados.

Em regiões dominadas pelas AUC, candidatos que tinham o apoio dos paramilitares recebiam votos em massa, enquanto adversários eram intimidados ou impedidos de fazer campanha. Mancuso chegou a afirmar publicamente, em 2005, que cerca de 35% do Congresso colombiano tinha sido eleito em áreas sob influência dos paramilitares.

O Pacto de Ralito

A prova mais emblemática dessa aliança veio à tona em 2006: um documento assinado em 2001 em Santa Fe de Ralito, no departamento de Córdoba, por chefes das AUC e por dezenas de políticos, incluindo congressistas, governadores e prefeitos.

O texto, conhecido como Pacto de Ralito, falava em “refundar a pátria” e firmar um novo contrato social. Para os investigadores, era a formalização da aliança entre o paramilitarismo e parte da classe política.

As investigações

A partir de 2006, a Suprema Corte de Justiça da Colômbia, que tem competência para investigar e julgar congressistas, abriu processos contra parlamentares acusados de associação com os paramilitares. Os casos se basearam em depoimentos de ex-chefes das AUC, documentos apreendidos, como o computador do paramilitar conhecido como “Jorge 40”, e análises de votações.

O escândalo atingiu principalmente políticos da coalizão de apoio ao presidente Álvaro Uribe, que governava desde 2002 com uma política de linha dura contra as guerrilhas.

Os casos emblemáticos

  • Mario Uribe Escobar, senador, ex-presidente do Congresso e primo do presidente Álvaro Uribe, foi condenado pela Suprema Corte em 2011 por associação com grupos paramilitares.
  • Jorge Noguera, ex-diretor do DAS, o Departamento Administrativo de Segurança, a polícia secreta da Colômbia, ligada diretamente à Presidência, foi condenado a 25 anos de prisão em 2011 por colaborar com as AUC, incluindo o fornecimento de listas de sindicalistas e opositores que depois foram assassinados, como o professor universitário Alfredo Correa de Andreis.

Ao todo, dezenas de congressistas foram condenados, e centenas de políticos locais foram investigados. Foi um dos maiores processos de responsabilização de parlamentares já vistos na América Latina.

A desmobilização e a extradição

Entre 2003 e 2006, o governo Uribe negociou a desmobilização das AUC. Dezenas de milhares de combatentes entregaram armas, e a Lei de Justiça e Paz ofereceu penas reduzidas, de no máximo oito anos, em troca de confissão dos crimes e reparação às vítimas.

Em maio de 2008, o governo extraditou 14 chefes paramilitares para os Estados Unidos, entre eles Salvatore Mancuso, para responder por narcotráfico. A medida foi criticada por vítimas e juízes colombianos, que temiam que os chefes deixassem de colaborar com a verdade sobre os massacres e as alianças políticas. Carlos Castaño já tinha sido morto em 2004, num assassinato atribuído ao próprio grupo.

Por que esse caso importa hoje

A parapolítica é um exemplo de captura do Estado por um grupo armado ligado ao narcotráfico, não pela força direta, como num golpe, mas pelas urnas, com intimidação e votos controlados.

Também é um exemplo raro de responsabilização efetiva: a Suprema Corte colombiana condenou dezenas de parlamentares em exercício ou recém-saídos do cargo, incluindo aliados próximos do presidente mais popular do país naquele momento. E deixou uma lição sobre o custo de negociar com grupos armados sem garantir a verdade às vítimas.

Linha do tempo

  • 1997 · Fundação das Autodefensas Unidas de Colombia.
  • 2001 · Assinatura do Pacto de Ralito entre chefes paramilitares e políticos.
  • 2002 · Álvaro Uribe é eleito presidente.
  • 2003–2006 · Desmobilização das AUC; Lei de Justiça e Paz.
  • 2006 · Escândalo da parapolítica e revelação do Pacto de Ralito.
  • Maio 2008 · 14 chefes paramilitares são extraditados para os Estados Unidos.
  • 2011 · Mario Uribe e Jorge Noguera são condenados.

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