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Internacional · 1983–1989

Manuel Noriega: o ditador que trabalhava para a CIA e para o cartel

Durante anos, o homem forte do Panamá foi informante dos Estados Unidos e sócio do Cartel de Medellín ao mesmo tempo. Terminou capturado depois de uma invasão militar americana e condenado em três países.

Por Indivíduo Execrável · 4 min de leitura

Manuel Antonio Noriega nunca foi eleito para nada. Mesmo assim, durante a maior parte dos anos 1980, foi o homem que mandava no Panamá. Comandava as forças armadas, decidia quem seria presidente e controlava a polícia e os serviços de inteligência. Ao mesmo tempo, era um informante pago pela CIA e um parceiro do Cartel de Medellín, de Pablo Escobar. Essa dupla lealdade funcionou por anos, até que deixou de ser útil para Washington.

Da inteligência ao poder

Noriega fez carreira na Guarda Nacional panamenha e se tornou chefe da inteligência militar no governo do general Omar Torrijos, que comandou o país de 1968 até morrer num acidente aéreo em 1981. Desde o fim dos anos 1960, Noriega mantinha contato com a inteligência americana, que o pagava por informações sobre a região.

Depois da morte de Torrijos, disputas internas abriram espaço. Em 1983, Noriega assumiu o comando das Forças de Defesa do Panamá e se tornou o governante de fato do país.

O valor estratégico

O Panamá era peça central para os Estados Unidos: abrigava o Canal do Panamá, ainda sob administração americana, e bases militares importantes. Nos anos 1980, Washington travava a Guerra Fria na América Central, apoiando os Contras na Nicarágua contra o governo sandinista.

Noriega era útil nesse jogo. Fornecia informações, ajudava em operações e circulava entre todos os lados. Por isso, durante anos, as suspeitas sobre suas outras atividades foram toleradas.

O cartel

Enquanto colaborava com os americanos, Noriega fazia negócios com o Cartel de Medellín. Segundo as acusações apresentadas depois na Justiça dos Estados Unidos, ele:

  1. Permitia o trânsito de cocaína pelo território panamenho a caminho dos Estados Unidos, em troca de pagamentos milionários;
  2. Facilitava a lavagem de dinheiro do narcotráfico no sistema bancário do Panamá, que funcionava como um centro financeiro com pouca fiscalização;
  3. Oferecia proteção a integrantes do cartel e a suas operações.

Os valores recebidos, segundo a acusação, chegavam a milhões de dólares.

Repressão e fraude

Dentro do país, o regime era marcado por repressão. Em 1985, o opositor Hugo Spadafora, que acusava publicamente Noriega de envolvimento com o narcotráfico, foi encontrado decapitado na fronteira com a Costa Rica. O crime foi atribuído a militares ligados ao general.

Em 1989, a eleição presidencial foi vencida pela oposição, mas Noriega anulou o resultado. Candidatos oposicionistas foram espancados nas ruas por milícias do regime, em cenas transmitidas pela televisão.

O rompimento

Em meados dos anos 1980, Noriega deixou de ser útil e passou a ser constrangimento. Em fevereiro de 1988, tribunais federais da Flórida o indiciaram por narcotráfico e lavagem de dinheiro. Washington impôs sanções econômicas ao Panamá. Noriega resistiu e sobreviveu a uma tentativa de golpe em outubro de 1989.

A invasão

Em 20 de dezembro de 1989, os Estados Unidos lançaram a Operação Justa Causa e invadiram o Panamá com dezenas de milhares de soldados. O objetivo declarado era proteger cidadãos americanos, restaurar a democracia e capturar Noriega. Centenas de panamenhos morreram nos combates, e o número exato de vítimas civis é até hoje motivo de disputa.

Noriega se refugiou na nunciatura apostólica, a representação diplomática do Vaticano na Cidade do Panamá. Os soldados americanos cercaram o prédio e passaram a tocar rock em volume altíssimo, dia e noite, numa tática de pressão que ficou famosa. Em 3 de janeiro de 1990, Noriega se entregou.

As condenações

Levado para Miami, Noriega foi julgado e condenado em 1992 por narcotráfico, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Recebeu uma pena de 40 anos, depois reduzida. Cumpriu cerca de 17 anos numa prisão federal americana, com status de prisioneiro de guerra.

Em 2010, foi extraditado para a França, onde foi condenado por lavagem de dinheiro do narcotráfico. Em 2011, a França o extraditou para o Panamá, onde já tinha sido condenado à revelia por crimes como o assassinato de Hugo Spadafora. Cumpriu pena no país até morrer, em maio de 2017, aos 83 anos.

Por que esse caso importa hoje

O caso Noriega é o exemplo mais claro de um chefe de Estado a serviço do narcotráfico, e de como interesses geopolíticos podem proteger esse tipo de governante por anos. O mesmo governo que o pagava como informante acabou invadindo o país para prendê-lo.

Também mostrou o papel dos centros financeiros com pouca fiscalização na engrenagem do tráfico. O dinheiro da cocaína precisava de bancos, e o Panamá de Noriega oferecia isso.

Linha do tempo

  • Fim dos anos 1960 · Noriega começa a colaborar com a inteligência americana.
  • 1983 · Assume o comando das Forças de Defesa e passa a governar de fato o Panamá.
  • 1985 · Opositor Hugo Spadafora é assassinado.
  • Fev. 1988 · Indiciado por narcotráfico nos Estados Unidos.
  • Maio 1989 · Anula a eleição vencida pela oposição.
  • 20 dez. 1989 · Estados Unidos invadem o Panamá.
  • 3 jan. 1990 · Noriega se entrega.
  • 1992 · Condenado em Miami por narcotráfico.
  • 2010–2011 · Extraditado para a França e depois para o Panamá.
  • Maio 2017 · Morre no Panamá.

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