Em 1980, a Bolívia estava prestes a ter um governo eleito. Depois de anos de ditaduras e eleições anuladas, o candidato de centro-esquerda Hernán Siles Zuazo tinha vencido a votação e aguardava a confirmação do Congresso. Em 17 de julho de 1980, antes que isso acontecesse, tanques e paramilitares tomaram La Paz. O general Luis García Meza assumiu o poder. Por trás dele estava um patrocinador inédito para um golpe de Estado: o narcotráfico. O episódio entrou para a história como o Golpe da Cocaína.
A Bolívia e a coca
A folha de coca é cultivada há séculos nos Andes e tem uso tradicional na Bolívia. Nos anos 1970, porém, com a explosão do consumo de cocaína nos Estados Unidos e na Europa, a produção da pasta-base e da droga se tornou um negócio bilionário. A região de Beni e Santa Cruz, no leste do país, abrigava pistas clandestinas e laboratórios.
Entre os grandes traficantes do período estava Roberto Suárez Gómez, apelidado de “rei da cocaína”, dono de fazendas e aviões e fornecedor de pasta-base para os cartéis colombianos.
O golpe
Os traficantes tinham um problema com a democracia: um governo civil eleito poderia cooperar com os Estados Unidos no combate ao narcotráfico. Para eles, um regime militar amigo era um investimento.
Segundo investigações e julgamentos posteriores, o golpe de 17 de julho foi financiado em parte por narcotraficantes. Também contou com apoio de militares argentinos, da ditadura então no poder em Buenos Aires, que enviaram assessores especialistas em repressão, e de grupos paramilitares.
Um dos organizadores desses grupos era Klaus Barbie, ex-chefe da Gestapo em Lyon, na França, conhecido como “o carniceiro de Lyon”, que vivia na Bolívia com nome falso desde os anos 1950. Ele ajudou a montar uma milícia de mercenários conhecida como “Novios de la Muerte”, os Noivos da Morte.
A violência
O golpe foi brutal desde o primeiro dia. Paramilitares invadiram a sede da Central Operária Boliviana, onde se reuniam líderes da oposição. Ali foi morto Marcelo Quiroga Santa Cruz, deputado socialista, escritor e um dos principais opositores dos militares, que tinha liderado um processo de responsabilização do ex-ditador Hugo Banzer. Seu corpo nunca foi encontrado.
Nos meses seguintes, sindicalistas, estudantes, jornalistas e políticos foram presos, torturados, exilados ou mortos. Em janeiro de 1981, num dos episódios mais conhecidos da repressão, oito dirigentes do MIR, partido de esquerda, foram assassinados numa casa da Rua Harrington, em La Paz.
O narcoestado
No poder, o regime retribuiu o apoio. O ministro do Interior, coronel Luis Arce Gómez, primo de Roberto Suárez, foi acusado de usar o aparato do Estado para proteger o narcotráfico: as forças de segurança combatiam traficantes rivais e garantiam a operação dos aliados. Arce Gómez chegou a declarar publicamente que quem violasse as leis deveria andar com o “testamento debaixo do braço”.
Os Estados Unidos e vários países da região se recusaram a reconhecer o governo. A ajuda internacional foi suspensa, e a Bolívia ficou isolada.
A queda
O regime durou pouco. Pressionado pelo isolamento, pela crise econômica e por divisões dentro das próprias Forças Armadas, García Meza deixou o poder em agosto de 1981. Seguiram-se governos militares de transição até que, em outubro de 1982, o Congresso empossou Hernán Siles Zuazo, o vencedor da eleição de 1980.
Os julgamentos
A Bolívia fez algo raro na América Latina: julgou seu ditador. O processo foi conduzido no Congresso e na Suprema Corte de Justiça ao longo de vários anos. Em abril de 1993, a Corte condenou Luis García Meza a 30 anos de prisão sem direito a indulto, a pena máxima do país, por crimes como genocídio, assassinato, sedição e corrupção. Arce Gómez e outros integrantes do regime também foram condenados.
García Meza estava foragido. Foi localizado e preso no Brasil, em São Paulo, em 1994, e extraditado para a Bolívia em 1995. Cumpriu a pena numa prisão militar e morreu em 2018, ainda detido.
Luis Arce Gómez foi entregue aos Estados Unidos em 1989, onde foi condenado por narcotráfico. Depois de cumprir a pena americana, foi enviado à Bolívia para cumprir a sentença de 30 anos. Morreu em 2020. Klaus Barbie foi expulso da Bolívia em 1983, levado à França e condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade cometidos na Segunda Guerra.
Por que esse caso importa hoje
O Golpe da Cocaína é o exemplo mais extremo de captura de um Estado pelo narcotráfico: não se tratava de comprar policiais ou juízes, mas de financiar a tomada do governo inteiro.
O caso também é uma referência na responsabilização de ditadores na América Latina. Enquanto muitos países aprovaram anistias, a Bolívia julgou e condenou o general que tomou o poder, com ajuda de um país vizinho, o Brasil, para levá-lo de volta à prisão.
Linha do tempo
- Jun. 1980 · Hernán Siles Zuazo vence a eleição presidencial.
- 17 jul. 1980 · Golpe militar leva García Meza ao poder; Marcelo Quiroga Santa Cruz é morto.
- Jan. 1981 · Massacre da Rua Harrington, em La Paz.
- Ago. 1981 · García Meza deixa o poder.
- Out. 1982 · Siles Zuazo assume a Presidência.
- 1983 · Klaus Barbie é expulso para a França.
- 1989 · Arce Gómez é entregue aos Estados Unidos.
- Abr. 1993 · García Meza é condenado a 30 anos sem indulto.
- 1994–1995 · Preso em São Paulo e extraditado para a Bolívia.
- 2018 · García Meza morre preso.
